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Nos fins do século XI começou a idade mais
tenebrosa para o judaísmo. O advento das Cruzadas trouxe no seu bojo
uma nuvem de trevas que envolveu o judaísmo por mais de sete séculos,
uma densa escuridão que só foi iluminada pela luz dos estudos, luz essa
que os judeusguardavam com zelo e que nenhuma tempestade, por mais
furiosa, pôde apagar. Comunidades inteiras foram exterminadas. A vida
dos judeus tornou-se um martírio constante. Contudo, a mais amarga
perseguição não pôde extinguir, nem diminuir neles o ardor pelos
estudos; este, pelo contrário, se tornou, por assim dizer, ainda
mais intenso. O estudo foi sempre considerado pelos judeus como
um dever religioso. A mais alta ambição do judeu não era chegar
a ser um homem rico, mas um rabi, um estudioso, uma vez que na
comunidade somente a instrução ditava o respeito, sendo a ignorância
considerada como desgraça. E quando, na idade das trevas, os judeus
foram excluídos de todas as profissões honrosas e da comunhão social
com seus próximos, os cristãos, eles concentraram-se, aprofundando-se
cada vez mais no estudo da sua literatura própria, baseada na Bíblia
e no Talmud. Do século XI ao XIV, uma escola de talmudistas franceses,
conhecidos sob o nome de Tosafistas, abriu o caminho para a elucidação
do Talmud. Um dos maiores estudiosos do século XIII que, além das suas
grandes contribuições à Lei Talmúdica, também escreveu um comentário
erudito na Bíblia, foi Moisés Nahmânides. Também desempenhou um papel
importante no desenvolvimento do misticismo judaico, que naquele período
alcançou um lugar proeminente na literatura dos judeus.
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Mas mesmo então encontramos alguns judeus
que, embora talmudistas, tiveram grandes conhecimentos da cultura leiga
da sua época como, por exemplo, o Rabi Tam e o Rabi Moisés Nahmânides,
que era médico, comendador, autor religioso e cabalista. Outros judeus
distinguiram-se no campo da matemática e de outras ciências (o quadrante,
o globo e o relógio do sol foram inventados pelos judeus). Diz-se que
Ibn Ezra foi o primeiro que dividiu o globo terrestre em partes, por
meio do equador. Sabe-se que Leon de Bonclas inventou o telescópio,
tornando assim possível a navegação durante a noite pela observação
das estrelas. Quem foi esse Leon? Não foi outro senão Rabi Levi ben
Gerson, Ralbag, e não há mais dúvidas que a viagem de Colombo só foi
possível graças aos astrônomos judeus.
No século XIV, a literatura judaica entrou
numa fase de decadência. As condições terríveis que impunham à vida dos
judeus reagiram sobre o espírito, tornando-se manifesta a sua tendência
de se retirarem do domínio da pesquisa livre. Contudo, até nesse período
de trevas podemos apontar luminares no campo da literatura e da filosofia.
Iudá Alharisi escreveu uma belíssima coleção de poemas sob o nome de
Tahkemoni, uma das obras primas da produção medieval. Iedidia Bedrachi
ganhou fama com o seu Exame do Mundo, traduzido
para muitas línguas, inclusive para o inglês. Levi, o filho de Guershom
- Gersônides - notável astrônomo do século XIV, cujos trabalhos sobre
astronomia, escritos em hebraico, foram traduzidos para o latim pelo
papa Clemente VI, escreveu uma famosa obra filosófica:
As Guerras do Eterno. Um outro filósofo notável
foi Ghasdai Crescas, cuja obra A luz do Eterno
exerceu grande influência sobre o pensamento de Spinoza.
O livro dos Princípios, tratado de Josef Albo,
tornou-se o manual popular da filosofia religiosa. Todavia, todos
esses autores eram o reflexo tardio do "Sol Poente do Pensamento
Judaico", que por um certo tempo veio a ser dominado por um espírito
de exclusivismo e inteiro devotamento ao estudo do Talmud e de seus
comentários.
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