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Até agora temos
nos ocupado de uma história simples e coerente. O hebraísmo antigo apresenta
certas características definidas que completam seu desenvolvimento nos
pensadores judeus da Idade Média. Estas características, assim desenvolvidas,
formam o fundo permanente do sistema de Spinoza, que, por isso, pode ser
considerado como o principal caminho de acesso do hebraísmo filosófico ao mundo
moderno(65). A partir desse momento nossa tarefa torna-se mais
complicada. Por uma parte temos os pensadores judeus individuais; por outra, a
antiga tradução do pensamento judeu. E é com freqüência tão difícil precisar as
características judaicas dos primeiros como determinar exatamente os limites da
influência da última. Em lugar, pois, de pretender uma relação completa, seja
da obra devida a cada pensador judeu moderno, seja de todas as ramificações que
tenha tido no mundo moderno o velho pensamento judeu, proponho-me a concluir a
parte histórica deste estudo com uma nota sucinta sobre os homens bem
conhecidos e nos quais se combinam ambos os aspectos.
O primeiro deles,
Moisés Mendelssohn (1729-1786), foi filósofo demasiado
popular de sua época para conservar uma importância particular aos olhos
da posteridade, e ainda que tenha desempenhado um papel importante no
desenvolvimento da estética,
sua obra na metafísica só interessa ao historiador. Sem embargo, em um grande
problema de interesse geral, sua contribuição ao pensamento apresenta um valor,
ao mesmo tempo permanente e judaico.
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Obrigado por
Lavater a participar de uma controvérsia teológica, Mendelssohn foi compelido a
declarar publicamente sua opinião sobre a religião em geral e sobre o judaísmo
em particular. Definiu sua posição em sua correspondência (1769-1770), em sua
introdução à tradução alemã por Herz (1782) da -
Defesa dos Judeus dirigida a Cromwell por Manassé ben Israel, e
finalmente em sua
Jerusalém (1783)(66). Desde logo, na
medida que se tratava da questão particular do judaísmo, como sistema
religioso, ele sustentava que é uma religião para o judeu. Propunha-se, em
conseqüência, permanecer fiel às suas convicções e seguir sendo judeu, não
pedindo a seus amigos não judeus nada mais do que a tolerância que ele lhes
outorgava. Em segundo lugar, e aqui empreendia uma tarefa mais vasta, indicou
que a exigência da religião não é teoria especulativa, senão moral prática. «Entre
todos os preceitos e regras da lei mosaica, não há uma só que diga: «Tú deves
crer nisto» ou «Tú não deves crer nisto», ao contrário, todos dizem: «Tú deves
fazer» ou «Tú deves abster-te»». A fé não é ordenada, pois ela não se impõe(67).
Neste chamado à uniformidade da conduta, e não do credo, expressava o que nós
temos visto sempre como um dos fundamentos do hebraísmo. Os credos e as
teologias podem variar segundo os caracteres cambiantes dos povos (o que fez
ressaltar Lessing, o amigo de Mendelssohn, em seu
Natan, o Sábio); porém, «o que o
Senhor pede de ti» é «ser justo e misericordioso e seguir
humildemente teu Deus»(68). Esta atitude(69-70) era tão
estranha nos albores do século XVIII, que provocou a surpresa e a admiração, até
mesmo de Kant, o qual numa carta de congratulação (de 6 de agosto de 1783)
sentiu-se movido a expressar o desejo, ainda não cumprido, de ver as lições de
Jerusalém adotadas em todos os corações pelas religiões
do mundo inteiro.
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