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O segundo dos
dois pensadores judeus que merecem uma atenção particular é o grande
protagonista dos estudos kantianos em tempos recentes,
Hermann Cohen (1842-1918). Este pensador, fundador da
chamada «escola de Marburgo», procurou estabelecer sobre a base da de Kant uma
teoria que ia mais adiante, sem embargo, da «dupla raiz» do pensamento
kantiano. Seguia nisso o caminho originalmente traçado por outro judeu,
Salomão Maimon (1754-1800), que foi o primeiro a fazer
notar o dualismo inerente à
filosofia crítica; Maimon deve o lugar proeminente que ocupa na história do
idealismo moderno(71), ao seu esforço para corrigi-lo. É interessante
indagarmos se temos direito de ver na reação de Maimon contra o dualismo uma
nova forma do velho protesto monoteísta(72). Porém, qualquer que
tenha sido o caso para Maimon, para Cohen não há dúvida a respeito. Ele viu
muito acertadamente em sua própria reconstrução de Kant a ação da idéia monoteísta
e não poupou esforços para mostrar a filiação geral de seu pensamento no do
monoteísmo bíblico e sua manifestação filosófica nos escritores judeus pós-bíblicos,
Maimônides, em particular. Vincular Kant a Maimônides não é tão absurdo como
parece à primeira vista. A Síntese escolástica continuou até Kant, e mesmo
depois dele, diriam alguns; e Maimônides, pela tradução latina do
Guia, desempenhou um papel direto e de primeiro plano
nesta síntese(73). Não
é, pois, surpreendente que os materiais e a ordenação da «dialética
transcendental» reflitam a estrutura do «Guia»: o «ideal racional» de Kant, o
Deus maimonidiano, de quem o atributo da existência não é enunciado senão por
analogia; a investigação «crítica» mesma,
e a discussão de Maimônides sobre a natureza e
os instrumentos do conhecimento. Ainda que se possa pensar, em todo caso, nas
relações entre a lógica da
Crítica da Razão Pura e a do monoteísmo
filosófico(74),
deve-se admitir que não há necessidade de uma ingenuidade filoniana para ver na
Crítica da Razão Prática, somente um Moisés
que fala alemão. O núcleo da
doutrina de Kant, sua orientação moral, parece, a muitos, recordar diretamente
o movimento pietista (hebraizante) no meio do qual cresceu. Os trovões do Sinai
estão reproduzidos na majestosa formulação do «imperativo categórico» por Kant.
O «monoteísmo ético» kantiano (ao qual se chama por troça de «monateísmo ético»)
que cria em Deus como um exemplo de moralidade, pode tomar por divisa o preceito:
«Vós sereis santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo»(75).
O duplo chamado à «lei moral em mim» e «ao céu estrelado sobre mim», evoca a
associação no mesmo apóstrofo(76) dos «céus que proclamam a glória
de Deus» e da «Torá que restaura a alma». O princípio kantiano da
universalidade é a primeira condição de um código monoteísta(77), e
a «máxima prática» é a interpretação negativa dada por Hilel ao mandamento(78) de
amar ao próximo como a si mesmo: «Não faças aos outros o que não queres que os
outros te façam». O cerimonial do judaísmo revela uma significação ética válida
em todo o tempo e em toda sociedade humana. A instituição do sábado, por
exemplo, já assinalada por Filon(79) como uma contribuição única ao
bem-estar da sociedade, significa a limitação das horas de trabalho, medida que
eleva o trabalhador acima das esferas das «coisas» e lhe confere a «dignidade»
de uma «pessoa». Os dogmas do judaísmo - reduzidos em uma passagem do Talmud(80) a
um só - o rechaço do politeísmo, são fundamentalmente não mais que três: a fé
no Deus único, na «recompensa e no castigo» futuros e na vinda da idade
messiânica, expressam a essência da vida moral no tríplice aspecto do fim
ideal, do esforço permanente e do ganho seguro. Cohen via nesta importância da
vida moral da razão, a «significação do judaísmo para o progresso religioso da
humanidade»(81), e seu grande mérito está em haver impulsionado com
energia os espíritos a retornar ao aspecto ético do Deus de Israel.
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A luta contra a
mitologia e o antropomorfismo, que constitui um aspecto essencial do hebraísmo
encontrou nele um valioso combatente nos domínios mais vastos do pensamento, e
fora das dificuldades particulares de sua posição, tanto na filosofia geral
como em sua interpretação do judaísmo(82), são admiráveis a
sublimidade com que revestiu a sabedoria antiga de seu povo e a sutileza com
que desentranhou a significação universal dela.
A parte
histórica de nosso exame deve deter-se aqui por duas razões. Em primeiro lugar,
o número dos pensadores judeus contemporâneos é tão grande que não se pode
tratar deles em um parágrafo final. Em segundo lugar, sua vinculação implícita
ou explícita com o judaísmo ou com o pensamento judeu, em muitos casos não
aparece claramente. Tem-se ensaiado, por exemplo, apresentar a filosofia de
Bergson como um reaparecimento desse aspecto do pensamento judeu que na
história representaram Filon, Ibn Gabirol e a Cabala. Tem-se acreditado
explicar as preferências de Alexander por Spinoza em virtude das tendências
ancestrais. Tem-se escrito, igualmente, muito sobre a fonte da teoria do
professor Freud e de outros mestres no domínio da psicologia moderna, e,
certamente, é digno assinalar-se que a ampliação do conjunto desta matéria seja
devida em muito a homens de origem judia, tais como Steinhal, Durckheim e
Münsterberg. O mesmo, o que constitui, talvez, o mais maravilhoso dos
movimentos intelectuais modernos, o desenvolvimento da física matemática,
resulta em grande parte do trabalho dos judeus Michelson, Minkowski, Einstein e
Weyl, enquanto que sua interpretação filosófica (como parte de um vasto
conjunto de outros trabalhos frutíferos de história geral e de valorização das
ciências) deve muito às luzes de Cassirer, Brunschvig e Meyerson. Porém a
verdade é sua própria testemunha e seu próprio juiz, e é absurdo discuti-la em
termos relacionados com seus descobridores. Como muitos outros inovadores,
estes homens sairam de Israel, porém sua obra é para o mundo inteiro.
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