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O lugar do
hebraísmo na Ética é geralmente reconhecido. Fica por considerar a sua
importância para a ciência. É necessário assinalar não só que esta importância
existe(101), senão que ela é, precisamente, da mesma ordem e nasce
justamente da mesma fonte que a moral. O monoteísmo significa, não só a busca
positiva da unidade, como também, como negação, o repúdio a pôr o homem no
trono de Deus. Daí flui, como temos visto, seu caráter concreto real, objetivo.
Ora, o espírito científico deixa-se definir por estas mesmas características, e
a grande função do segundo movimento do pensamento judeu, do movimento do
hebraísmo medieval, consistiu em havê-las deduzido explicitamente no estudo da
natureza a partir do princípio monoteísta. Vimos que ali reside a sua principal
importância para o mundo moderno, posto que, pelo menos, esta parte de sua
doutrina revive no pensador a que se chamou o filósofo dos sábios: Spinoza. É
oportuno chamar a atenção sobre o fato de que o mesmo espírito reaparece,
consciente ou inconscientemente, na obra mais recente de muitos pensadores de
origem judaica.
A teoria da
relatividade, por exemplo, devida em grande parte à obra de judeus, é, segundo
seus melhores intérpretes(102), e apesar de seu nome errôneo e
pouco feliz, uma tentativa de superar o ponto de vista limitado do observador
individual, e, como conseqüência, um novo passo para essa despersonalização de
nossas idéias fundamentais a que tende todo o pensamento científico. Como tal,
ela se assemelha nitidamente ao que temos visto como parte integrante da
tradição hebraica em metafísica(103). Ao afirmar que «os pensamentos de
Deus não são nossos»(104), faz-se ressaltar, não tanto o
erro humano, como a verdade de Deus. Assim criou-se um critério supremo,
igualmente válido para todos os pontos de vista. Ou, melhor, este critério tem
um caráter tal que diante dele desaparecem os pontos de vista individuais. Na
teoria da relatividade, esta tendência anti-antropomórfica parece ter
encontrado sua expressão matemática; ela fornece uma importante contribuição ao
conjunto do pensamento moderno que não somente vem de personalidades judias,
como que também reflete inconscientemente as características familiares do
antigo hebraísmo.
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Tomemos outro
exemplo: é digno de nota que os três esforços definidos dos tempos modernos
para colocar a mente humana «em seu lugar», venham de Bergson, de Alexander e
de Freud. Aqui também, explícita ou implicitamente, este esforço se vincula
claramente à aversão hebraica ao antropomorfismo. O pensamento humano só é
um elemento no universo. «Os espíritos, como diz
Alexander(105), não são senão os membros mais bem dotados que
conhecemos em uma democracia de coisas». É da essência do hebraísmo
dilatar os limites. Na imensidade da criação não podemos
reclamar para uma coisa a precedência sobre outra.
A significação
deste ponto de vista aparece com força na maneira em que muitos pensadores
judeus, tanto clássicos como modernos, tratam um dos supremos problemas: o da
relação entre a moral e a metafísica. Propõe-se freqüentemente elevar as
exigências do reino dos fins humanos ao estado da legislação que controla o
mundo, e assim interpretar o universo em seu conjunto à luz dos ideais morais
da humanidade. As opiniões sobre a origem destes ideais diferem. Porém, não
interpondo o interesse de uma teoria especial, é difícil sustentar que o homem
ou os «espíritos» afins a ele constituam a realidade inteira. É, pois, um
exagero da importância do homem, isto de buscar uma interpretação da realidade
somente em suas aspirações. De igual modo, o hebraísmo tem considerado sempre
com suspicácia toda doutrina de «causas finais». Não podemos dar razão de
«porque» as coisas são como são. Só podemos registrar, com a maior precisão e
com toda humildade, o fato de sua existência e classificá-las da melhor maneira
possível. «Deus fez cada coisa para seu próprio fim»(106). Cada
coisa merece um exame por ela mesma e não em relação com as necessidades ou as
imagens da humanidade.
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