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A compilação das Escrituras Sagradas,
o denominado canon, foi concluído durante o século
2 A.C. Uma vez que a parte mais velha da Bíblia provém dos séculos 11-12
A.C. mais ou menos, tinha, portanto, que percorrer, até a sua redação
final, um longo caminho, e pode-se provar que esse longo caminho deixou
rastros bem marcados sobre seu aspecto exterior. Ainda hoje em dia
podem-se notar os indícios de revisores e redatores, que deturparam ou
intencionalmente "melhoraram" os livros antigos. À primeira vista pode
até parecer que o texto do Tanach fosse rigorosamente preservado na sua
feição original. Os escribas e os portadores da tradição, como é notório,
cuidavam das Escrituras Sagradas com o maior zêlo, enumerando não só
cada palavra, senão cada letra. Toda variante, por menor que fosse, fôra
especialmente anotada (Queri uchtib). Nós sabemos com que cautela se
escreviam entre os judeus os Rolos da Lei; o menor erro bastava para
invalidar um Rolo. Todavia seria o maior erro julgar que a Bíblia
hodierna represente realmente o texto autêntico dos livros bíblicos.
Possuímos provas suficientes para nos forçar a admitir que na
antiguidade nutria-se menos respeito pelos textos dos livros bíblicos,
e foi por esse motivo que se introduziram não só muitos erros na
transcrição, como também alterações bem importantes no próprio texto.
As traduções mais antigas da Bíblia, como a Septuaginta grega, a Peshita
síria e outras, diferem em muitos pontos bastante do tradicional texto
hebraico. No Talmud também encontramos várias alusões a textos bíblicos
modificados. Ainda mais convincentes são as variantes que se citam nos
textos bíblicos por duas vezes.
Assim, por exemplo, encontramos o relato
acerca do sítio de Jerusalém por Senaquerib, uma vez em Isaías e outra
em Reis; os dez mandamentos acham-se em Êxodo e em Deuteronômio; a
relação dos repatriados da Babilônia cita-se em Ezdras e em Nehemias;
nos Salmos há cânticos que se repetem, etc...
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Uma comparação exata entre esses "dubletes"
mostra-nos quão grandes são as alterações, introduzidas muitas vezes nos
textos bíblicos, pelos copiadores e redatores. Particularmente instrutivo
neste ponto é o texto dos dez mandamentos, que já nos tempos remotos era
considerado o mais valioso documento das Escrituras Sagradas, motivo por
que se podia esperar que justamente esse texto fosse cuidado com especial
escrúpulo. Que assim não aconteceu, prova o cotejo de Êxodo 20 com
Deuteronômio 5.
Transcrevemos, [na pág. 70-71], apenas
aquela parte dos dez mandamentos, onde se acham maiores
alterações.
Afora algumas diferenças de somenos
importância, como seja a falta da conjunção "e", chamam especial atenção,
nos aludidos textos, as diversas motivações para os mandamentos de sábado
e de honrar pai e mãe.
Aos exegetas antigos já se deparou que o
mandamento de sábado inicia-se, em Êxodo, com
Lembra-te, e em Deuteronômio, com
Guarda. Uma lenda antiga explica que "lembra-te"
e "guarda" foram pronunciadas simultaneamente.
O mais importante é que o motivo do
mandamento de sábado em Êxodo, é puramente teológico: "Deus fêz o mundo
em seis dias e no sétimo descansou"; já em Deuteronômio a motivação é
ético-social: É preciso repousar no sábado, para que, o servo, o
salariado e o animal do trabalho possam descansar.
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