|
Ainda na época do exílio, também poude
a profecia apresentar uma porção de vultos consideráveis. De um modo
geral, porém, a atmosfera do domínio estrangeiro não foi terreno propício
para a inspiração profética, e a tradição judaica considera a Ageu e
Zacarias (atuaram em 515-520) como os últimos profetas. O manancial
profético nem agora secou de todo, mas não se tem mais ânimo de falar
em próprio nome, e na maior parte contentam-se apenas com suplementos
e apêndices às palavras dos profetas antigos.
A figura mais relevante do tempo do cativeiro
babilônico é sem dúvida o profeta da consolação, o autor de Isaias 40-55
(o "grande anônimo", como é qualificado por conhecido pesquisador bíblico,
e que figura geralmente sob o nome de Isaias Segundo).
Se os profetas antigos vislumbravam sobretudo
a aproximação da desgraça e a catástrofe nacional, Isaias já deixara a
catástrofe atrás de si, e se considera por isso o mensageiro da redenção e
do consolo. Se os profetas anteriores atuaram principalmente na praça
pública, era Isaias o profeta da congregação religiosa no exílio - de um
círculo restrito de correligionários. Falta-lhe, por esse motivo, o tom
severo da repreensão. Ele não batalha contra um mundo de inimigos como
Jeremias, mes vem, ao contrário, com a missão de fortalecer os fracos,
levar ânimo aos corações desesperados.
As grandes vitórias de Ciro e a desintegração
do império babilônico impressionaram profundamente o profeta e sem dúvida
toda a sua geração. Isaias II via nesses históricos acontecimentos
universais o dedo do Senhor. E Ciro era o enviado de Deus, para libertar
o povo de Israel. O profeta do consolo pertence aos mais universalistas
entre os pensadores da antigüidade judaica. O monoteismo, a idéia de um
único Deus todo poderoso, que domina o mundo e realiza o seu desígnio na
história, em parte nenhuma é apresentado com tanta clareza e coerência
como em Isaias 40-55.
|
Mais ainda que nos outros autores bíblicos,
ocupa por isso a natureza lugar proeminente na poesia de Isaias II. Os
céus e a terra cantam, quando Deus vai redimir o seu povo. A redenção
traz não só a libertação do jugo estrangeiro, mas também uma transformação
radical em toda a ordem do universo. (Isaias 41):
|
"Os aflitos e necessitados buscam águas,
mas nenhuma há e a sua língua se seca de sede: eu o Senhor os ouvirei,
eu o Deus de Israel, não os desampararei. Abrirei rios em lugares altos,
e fontes no meio dos vales: tornarei o deserto em tanques de águas
e a terra seca em mananciais de águas".
|
|
A imaginação profética passa além dos limites
da sóbria realidade, e continua tecendo o fio das antigas tradições
populares sobre a época do paraíso, os milagres no deserto, etc...
Não obstante toda a sua orientação
universalista, Isaias II continua entretanto a considerar Israel
- o povo eleito, que está, porém, incumbido de desempenhar o papel
de fanal para todos os povos. Deus, o Senhor de todo o universo,
não se olvidará de seu povo: "Porque os montes se desviarão, e os
outeiros tremerão; porém, a minha benignidade não se desviará de ti,
e o concerto da minha paz não se mudará". Nas chamadas "Cantigas dos
servos de Deus", que incontestavelmente pertencem a Isaias II, atinge
a poesia profética o seu nível mais elevado. O profeta não nos revela,
e sem dúvida intencionalmente, quem é na realidade o "servo de Deus",
se é a um indivíduo que se refere, ou ao povo todo. De qualquer modo
encontramos aqui, pela primeira vez na história, e em forma tão
clássica, a glorificação do fraco e justo, do herói que toma sobre si
os pecados e a culpa de todo um mundo:
|
"Era desprezado, e o mais indigno entre
os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e como um
de quem os homens escondiam o rosto era desprezado, e não fizemos
dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as dores levou sobre si; e nós o reputávamos por
aflito, ferido de Deus, e oprimido. Porém, ele foi ferido pelas
nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades: o castigo
que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos
sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se
desviava pelo seu caminho: porém, o Senhor fez cair sobre ele a
iniqüidade de nós todos". (Isaias, 53).
|
|
|