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A literatura bíblica de sabedoria foi em parte
produzida em rodas bem diferentes. Ela abrange o amplo terreno das normas
práticas da vida e da filosofia religiosa. Fragmentos da antiga literatura
de sabedoria judaica encontram-se espalhados quase por todos os livros
bíblicos. Com especial evidência manifestam-se as variadas formas literárias
da antiga sabedoria judaica nos livros de Provérbios, Eclesiastes e Job.
O livro Provérbios apresenta-nos uma coletânea de aforismos, sermões e
normas de conduta. Os aforismos são, via de regra, breves e constam
comumente de um verso duplo, e às vezes apenas de um verso simples:
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"Melhor é pouco com justiça
do que a abundância de colheita com injustiça.
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"O pobre fala com rogos
Mas o rico responde com dureza.
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"Necessidade padecerá o que ama a galhofa
O que ama o vinho e o azeite nunca enriquecerá".
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O livro de Job, a maior unidade literária que
há no Velho Testamento, pertence incontestavelmente às mais valiosas obras
da literatura universal. Aqui se aborda o problema da pessoa que sofre
inocentemente, do justo, a quem Deus castigou. A questão do justo que vai
mal e do impio que vai bem, da injustiça na ordem do universo, já se
encontra nos profetas Jeremias e Habacuc, e continua sendo também nos
séculos posteriores um dos problemas centrais do pensamento religioso
judaico, que fecundou grandemente a mentalidade religiosa na época do
Segundo Templo. Mas, em parte alguma foi este problema elaborado tão
amplamente, e tratado com tanta coragem de espírito e liberdade mental,
como no livro de Job. O anônimo autor conta primeiro a história popular
de Job num prólogo em prosa. Em seguida vem a parte poética, em que o
poeta nos apresenta, em forma de uma série de diálogos entre Job e seus
amigos, os mais variados conceitos com respeito ao problema da possibilidade
de se sofrer inocentemente.
Os três amigos de Job vivem argüindo: Se Deus
te castigou, é porque és culpado. Confessa que pecaste. Job, por sua vez,
mantém-se firme. Não pecou, e está sofrendo de todo inocentemente. E até
se atreve a desafiar Deus para uma disputa. Mais arrojo ainda demonstra o
autor, em dando razão a Job.
A forma do diálogo, segundo presumem alguns
pesquisadores, é imitação do torneio de sábios, nas côrtes reais ou
principescas, torneios muito em voga no mundo antigo. Também é provável
que o livro de Job nos apresente uma forma mais elevada da disputa
processual (demanda com Deus), a que já nos referimos anteriormente.
O que caracteriza o livro de Job é o seu vivo colorido universalístico,
aliás não judaico, que se estende através do livro todo. Os personagens
não são judeus. O nome de Jeová é substituído, na parte poética do livro,
por Shadai ou Eloa; entretanto, não pode haver a menor dúvida de que o
autor vivia num ambiente judaico. Este universalismo é geralmente peculiar
ao estilo literário dos mestres de sabedoria, pois a sabedoria pela sua
própria natureza, era a-nacional e acima de tudo individualista.
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Nem Job se ocupa dos problemas da coletividade
nacional, mas sim com o destino do indivíduo.
Sob aspecto diferente, o problema da sorte
pessoal e felicidade individual é tratado no livro de Eclesiastes. Aqui
o autor se oculta sob o nome de Eclesiastes (mestre ou pregador popular).
Em outra parte, Eclesiastes se intitula rei de Israel e Jerusalém (pela
tradição - Salomão, filho de Davi). Era de supor-se que o poderoso rei
de Jerusalém fosse um dos homens mais venturosos. Eis que se revela o
contrário. Eclesiastes, que tinha a oportunidade de gozar de tudo que
este mundo possa proporcionar a uma criatura humana, vê com particular
clareza, quão fútil é a vida humana. A idéia central, que domina o livro
todo, é: "Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades; é
tudo vaidade".
Por experiência pessoal sabe quão pouco valem
a alegria e a felicidade humanas, e que é "preferível ir à casa de luto a
freqüentar festivais". O autor também não está satisfeito com a ordem moral
do mundo:
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"Porque o que sucede aos filhos dos homens,
isso mesmo sucede às bestas... e a vantagem dos homens sobre as bestas
não é nenhuma".
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Tão pouco acredita nas teorias novas que então
surgiram a respeito da imortalidade da alma:
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"Quem adverte que o fôlego dos filhos
dos homens sobe para cima, e o fôlego das bestas desce para baixo
da terra?".
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Por aí se vê como era variada e multiforme a
literatura bíblica na época do Segundo Templo. Eclesiastes e Job caminham,
é verdade à margem da estrada tradicional, contudo não impediu isso a sua
admissão nas Escrituras Sagradas. São depoimentos de uma vida espiritual
livre, em que tomaram parte ativa todas as camadas da população judaica:
os pobres e piedosos das cantigas de Salmos, os sacerdotes e levitas, os
sábios e pensadores. Ao período do Segundo Templo também pertence a
coleção de canções de amor do Cântico dos Cânticos (posto que aí se
houvessem infiltrado canções mais antigas também), a maravilhosa história
de Ruth, etc...
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